SALADA CAPRESE may tomatoes be with you.

Dia D

Pô, Spielberg… Sou seu fã incondicional desde Duel, curti até o 1941, que ninguém gostou. Por que você fez isso comigo?

Fui ver o Dia D com o espírito de quem vai encontrar uma ex-namorada que ainda ama, cheio de esperanças de ter um revival, curtir de novo os bons momentos que passamos juntos. Não logrei êxito. Voltei pra casa com o coração em frangalhos.

Sabe aquela lágrima que qualquer ser humano que não seja um psicopata não conseguiu conter quando o E.T. foi embora? Então, isso tem nesse filme, mas só a casca, só a receita de bolo, só o plano fechado na cara do ator “emocionado” e a música melosa pra induzir o choro da audiência. Mas SEM o conteúdo da relação inteira construída entre Elliot e o E.T. E isso é o que faz aquele filme ser mágico e a separação deles doer no coração de qualquer não-psicopata. É a sua ex que você ainda ama vindo ao encontro, mas vem só a maquiagem, sem ela mesma por trás da maquiagem.

O roteiro é exageradamente confuso e dá pinta de ter coisas furadas nele, mas que tem que ver de novo para ver se foi tudo bem-feitinho mesmo e você que babou ou se foi o filme que não seguiu a boa dica de Nietsche, que sabiamente dizia: “não turve as águas para elas parecerem profundas”.

O principal problema do filme: este é um filme que fala, fala, fala, fala, fala, fala, fala, fala, fala, depois fala, fala, fala, e depois fala mais um pouco. Chega uma hora que dá vontade de gritar: “Cala a boca e deixa eu ver o filme!!” Qualquer filme sem o famoso “show, don’t tell”, não é cinema, é radio novela. E o Spielberg (justo ele!) esqueceu disso. Como a trama é um emaranhado exigente para quem assiste, ele achou que a boa solução é explicar tudo. E não é. Deveria ter uma normativa expedida em coautoria entre a ONU, a OMS, a OTAN e o Pacto de Varsóvia limitando que filmes que falam, falam, falam sejam escritos exclusivamente por Aaron Sorkin, que é o único que sabe fazer isso bem-feito.

Como uma consequência quase natural de um roteiro-matraca, TUDO é expositivo. Vou dar um exemplo que contém um pequeno spoiler. Se não quiser ouvir, pule esse parágrafo: a personagem chega num lugar que tem uma reconstrução da sua casa na infância. Isso já é anunciado quando ela chega no lugar e vomita: “esta é minha casa da infância”. Não satisfeita, ela começa a andar pela casa, até que chega num quarto de menina. Dá dois passos pra dentro do cômodo e diz pra si em voz alta: “meu quarto”… Pô, Spielberg! Você não fez isso nem quando tava fazendo filme pra criança. Fala sério, mano, me respeita.

E é isso o tempo todo. É uma metralhadora falando sem parar, tentando, com palavras, desfazer o embaralhado de um novelo de lã que um gato brincou a tarde toda.

Claro, tem ideias boas. Mas estas parecem só estar aplacando uma paixão do Spielberg pelo tema “extraterreste”, com o impacto que o Caso Roswell deve ter lhe causado na infância. Tem também a cena da Alfa-Romeo com o trem, que é bárbara, eletrizante mesmo – ainda que eu fique na esperança daquilo ter sido feito em CG e que nenhuma Alfa tenha sido sacrificada. Alfas são sagradas.

Não vou conseguir deixar de falar de outra coisa, esta acontecida no Brasil, que foi (e peço desculpas pelo termo técnico em francês) a cagada do título que foi dado ao filme aqui. “Dia D” se refere inalienavelmente a um evento histórico bem claro e pontual, inclusive já muito bem retratado pelo próprio Spielberg. Num primeiro momento, o título me fez pensar que talvez Steven tivesse aproveitado material de sobra do Resgate do Soldado Ryan pra montar outro filme. (e talvez tivesse sido melhor…)

Nota importante: A crítica sincera que fiz aqui não pretende anular a admiração – igualmente sincera – por ver alguém com quase 80 anos e que não tem que provar mais nada para ninguém, ainda achar fôlego e tesão para fazer um filme parrudo como esse. Isso é realmente admirável e mantém, pra mim, Steven Spielberg no panteão das referências aspiracionais.

Mas quanto ao Dia D, era melhor ter ficado só com o que eu tinha idealizado de memória sobre a minha ex.

Romeu di Sessa é roteirista e diretor há 30 anos. Com trabalhos no teatro, televisão, e cinema, ganhou diversos prêmios, inclusive um Kikito. Fez vários cursos de roteiros, entre os mais importantes destacam-se os cursos de Robert Mckee e Syd Field. Também ministra seu curso de roteiro “A Anatomia de uma História” desde 2005, já tendo passado de 50 turmas e 1000 pessoas capacitadas.