Vivemos numa época em que a animação é praticamente uma commodity, com estúdios pipocando aqui e ali, cada grande player de Hollywood produzindo suas próprias animações. Até a Netflix, conhecida por produções meia-boca, vêm lançando um sucesso atrás de outro, abocanhando Oscars, e quase sem errar. Sony Animation, Studios Ghibli, Warner Animation, Illumination (da Universal, casa dos Minions e do recém lançado Mario), cada um tem seu espaço e sua reservada dose de sucesso.
Não foi sempre assim. Houve uma época que o mercado era dominado por um único gigantesco estúdio: a Disney. E depois por nenhum. E depois pela Disney de novo. E depois pela Pixar. Aí a Pixar foi comprada pela Disney e parecia que a Disney ia dominar tudo de novo. Aí veio Shrek.
Babaca Mesquinho
Começando direto para o pior cenário da história da animação depois que a animação surgiu. O ano era 1984. Desde Mogli, de 1967, última animação que teve a participação de Walt Disney, o estúdio vinha acumulando fracassos. Essa é conhecida como a “Era das Trevas” da animação. Os Artistogatos, Bernardo e Bianca, O Cão e a Raposa, o Caldeirão Mágico… era fracasso atrás de fracasso, afundando a reputação do estúdio. A Disney estava ameaçada de ser vendida.
Roy Disney, irmão dO Cara, um dos cabeças do estúdio na época, tinha um plano: trazer um trio da Paramount para tentar salvar o estúdio. Veio então a ousada contratação de Michael Eisner, Frank Wells, e Jeffrey Katzenberg. Eisner se tornaria o CEO. Katzenberg chefiaria a divisão de filmes. E Wells era o COO, um estrategista, o adulto responsável por evitar que Eisner e Katzenberg se matassem em uma disputa de egos.

Porque apesar de serem babacas mesquinhos, Katzenberg e Eisner entendiam demais do mercado. Eles reestruturaram o estúdio, arrumaram a casa, limparam a gordura, e juntos criaram uma das eras mais marcantes da história da animação.
A Renassença da Disney
O primeiro filme que Katzenberg pôs a mão já se tornou um clássico: “Um Ratinho Detetive” (1986). Katzenberg priorizava uma animação rápida e engraçada, porém menos artística. Antenado, ele já colocava cenas de CGI, como as engenhocas do Big Ben na batalha final.
Depois desse filme, a Disney, liderada por Katzenberg, entrou em um ritmo alucinado de produção com uma proposta ousada: Oliver (1988) chegou com o que Katzenberg chamava de um “musical da Broadway, porém animado”. Foi o primeiro teste para o que viria a ser chamado de Era da Renassença da animação, uma época onde sucesso após sucesso eram lançados, com histórias e personagens que perduram até hoje.
Não é à toa: os filmes da renassença são todos grandes sucessos:
A Pequena Sereia (1989), A Bela e a Fera (1991), Alladin (1992), O Rei Leão (1994), Pocahontas (1995), O Corcunda de Notre dame (1996), Hércules (1997), Mulan (1998), e Tarzan (1999).
O acidente de helicóptero
No dia 03 de abril de 1994, um acidente de helicóptero durante uma viagem de esqui tirou a vida de Frank Wells. Wells tinha um papel importante no tripé criativo da alta hierarquia da Disney: era a única pessoa que Eisner confiava e a única que Katzenberg respeitava. Mais do que isso, era a única pessoa que conseguia lidar com os egos dos dois babacas e evitar que eles se matassem enquanto trabalhavam juntos e produziam os grandes sucessos da era Disney.
Apenas dois dias depois da morte de Wells, Katzenberg e Eisner tiveram sua primeira briga séria. DOIS DIAS! Jeffrey Katzenberg queria tomar o posto de COO e pressionava Eisner para isso. A empresa estava há dois dias sem um COO, era hora de brigar.
Esse conflito de cabeçudos resultou na demissão de Katzenberg. É claro que Eisner fez isso da forma mais humilhante e errada possível, de forma que o processo todo se tornou excruciante e dispendioso: estima-se que Jeffrey Katzenberg tenha recebido cerca de 250 milhões de dólares em multas e taxas durante sua demissão.
Mas para um ególatra, não era o suficiente.
A Dreamworks
Não demorou muito para que Katzenberg se movesse fora da Disney. Ele se uniu a Spielberg, com quem já tinha trabalhado em Who Framed Roger Rabbit? e criou um estúdio de animação concorrente: a Dreamworks. Antenado com a tecnologia 3D, Katzenberg não queria necessariamente atacar a Disney, mas sim um de seus projetos mais promissores: a Pixar.
Para isso, Katzenberg veio com ameaças: como ele sabia que a Pixar estaria trabalhando em uma animação 3D com insetos, ele forçou o recém criado estúdio Dreamworks a fazer a mesma coisa: surgia Formiguinhaz, não só uma afronta à Pixar como uma tentativa de desgastar o formato “filme de animação com insetos” só para prejudicar o estúdio concorrente. Não à toa, Katzenberg correu tanto com a produção que Antz chegou aos cinemas quase um mês antes do seu irmão mais bem sucedido. Sim: Vida de Inseto faturou quase o dobro de Formiguinhaz e os executivos da Pixar jamais perdoaram Katzenberg.
O fracasso de público e crítica de Formiguinhaz parecia estabelecer que a Disney/Pixar seria imbatível na área de animação. Com duas animações 2D medianas (“Príncipe do Egito” e “O Caminho para El Dorado”) e um stop motion maravilhoso (“Fuga das Galinhas”), o estúdio ainda parecia perdido, sem identidade.
Somebody once told me…
Eis que chega o ogro.
Não há nenhuma dúvida que o principal alvo das piadas de Shrek é o estúdio Disney e sua cultura de conto de fadas.
Não à toa, o vilão é o dono da terra encantada, um ser baixinho, arrogante, que quer ter o controle de todas as criaturas mágicas, e que tem uma certa semelhança com o Michael Eisner de perucas, se você olhar com atenção:

A piada não foi somente direcionada, como foi extremamente bem feita. Shrek se tornou um enorme sucesso, um clássico da animação, e desbancou o excelente Monsters Inc. no Oscar daquele ano. Não só isso, mas Jeffrey Katzenberg foi quem subiu ao palco para receber o Oscar de melhor animação. Depois de ser humilhado em uma demissão mal-feita, o idiota venceu.
E, quer saber? Foi merecido.
Leitura:
Grande parte do material deste artigo foi obtido do livro Disney War, de James B. Stewart.