SALADA CAPRESE I see dead people

Devoradores de Estrelas

Um tempo atrás, comecei a trabalhar em um livro que se passa no ano 1. Dinheiro é um fator crucial da história e, como um nerd querendo fazer um trabalho acurado, me afundei em pesquisas monetárias da época de Cristo. Daí pra frente foi uma espiral de pesquisas, que gerou tabelas de Excel convertendo valores, convertendo diferentes tipos de moedas do império romano, e considerando 2000 anos de inflação. Isso para um projeto que nem foi pra frente (ainda).

Dito isso, o trabalho que Andy Weir faz em seus livros é não menos que genial.

…no Sistema Solar

The Martian, que chegou ao Brasil como Perdido em Marte, foi meu primeiro contato com o autor. Eu o conheci através de uma tirinha do XKCD, que mencionava o livro como sendo “aquela cena de Apollo 13, onde os gênios da NASA precisam fazer uma peça quadrada encaixar em uma abertura redonda usando só as ferramentas que os astronautas têm disponíveis em uma nave espacial, mas estendida para um livro inteiro“. Não fale mais nada, já me vendeu o livro.

E The Martian é realmente um BAITA livro. Com um aprofundamento científico invejável, o livro não acha atalhos lógicos. Tudo que é feito é cuidadosamente explicado, seja como é feita a comunicação entre Terra e Marte — incluindo os longos intervalos necessários para uma mensagem ir de um lado para o outro, onde acompanhamos com tensão o personagem principal sem saber se seu plano deu certo. É uma delícia ler tudo sabendo que esse tempo de comunicação, a trajetória das naves, a forma como o protagonista resolve problemas, tudo tem um forte embasamento científico.

Eu não consigo imaginar a quantidade de conta e o tamanho das planilhas de Excel que Andy Weir têm em casa para responder a todas essas perguntas no livro. O astronauta de The Martian precisa de coisas básicas, como produzir oxigênio e comida, e tudo passa por um rigor científico incalculável. Meses depois do lançamento do filme, descobriu-se que o solo de Marte tem perclorato, que é tóxico; portanto seria impossível comer as batatas que o astronauta planta em solo marciano. Mas não tinha como Andy Weir saber disso no momento que estava escrevendo um livro.

Perdido em Marte é ficção científica, com um foco bem grande na parte do científica.

…e em outras galáxias

Já o livro Project Hail Mary, que chegou ao Brasil com o excelente título “Devoradores de Estrelas”, é ficção científica com um foco bem grande na parte do ficção. O que não quer dizer que a ciência foi deixada de lado, muito pelo contrário.

Mas é que toda a base do livro vêm da descoberta de vida fora da Terra. Uma forma de vida que não se sabe de onde surgiu, mas que ameaça a vida de nossa principal estrela, o Sol. O livro se baseia no que aconteceria se a comunidade científica descobrisse algo assim, e precisasse se unir para salvar a vida em nosso planeta da eventual extinção causada por uma diminuição da atividade solar.

Todo o cenário apocalíptico soa crível. Todas as soluções de curto prazo parecem fazer sentido. E toda a “nova ciência” criada para o livro têm uma lógica quase incontestável.

Sim, porque Andy Weir não brinca em serviço: quando ele cria uma nova forma de geração de energia, ele também explica cientificamente como ela funciona, e detalha matematicamente quantas miligramas de combustível são necessárias para gerar uma determinada quantidade de energia. Se ele cita outros planetas e corpos celestes, ele inclui a composição química deles. Se há vida em outros lugares, a vida por ali faz sentido de acordo com a gravidade e atmosfera do planeta. O livro não pára: há uma nova língua musical, novos materiais químicos (baseados na tabela periódica que a gente já conhece, porque ninguém tá aqui pra palhaçada), e toda uma matemática de base 6 que eu fiquei com muita vontade de pegar papel, caneta, e calcular por conta própria porque eu sou nerd assim mesmo.

Tudo isso faz de Project Hail Mary uma leitura obrigatória para todo nerd fissurado em espaço (ou não). Além de ser um livro onde a parte da ficção é linda e bem estruturada.

…até nos cinemas

Tem o filme, verdade.

A Sony não nos convidou para a cabine de imprensa, então não tem crítica. Vai você assistir por conta própria. E depois compra uma camiseta temática lá na lojinha que tem uma coleção legal.

Pelo livro, eu recomendo.

Autor:
Barão do Principado de Sealand. Com uma inexplicável paixão por cinema, cervejas e queijos.