SALADA CAPRESE reviews à bolonhesa

Sirât

Vai ter quem adore esse filme e admiro essas pessoas. Mas eu não sou uma delas. Não gosto por alguns motivos, mas o principal é pela desproporção entre tamanho do filme e tamanho da história que ele conta. Claro que a lentidão e o esparrado da história estão lá por opção artística, mas há momentos em que isso soa mais com castigo mesmo.

O filme tem um visual muito impactante, ambientado nesses lugares que são inóspitos e imensos. Acho que aprendi a curtir isso no Mad Max (o primeiro). E também vivi isso anos atrás, quando fiz o Rally dos Sertões. Tinha trechos que parecia que não importava o quanto você já tinha andado, nunca passava dos 10% do percurso, sempre tinha muito pra andar. Esses lugares não são meramente opressores: eles escancaram a sua insignificância. E Sirât tira bom proveito disso, mas por tempo exagerado. A aspereza do lugar contamina o filme, no bom e no mau sentido. Podia ser só no bom.

O som é uma coisa importante neste filme, mas da mesma maneira os exageros estão lá não como um recurso narrativo, mas claramente para incomodar o público. E bom, conseguem…

A história principal é de um pai que, junto com seu filho, procura por sua filha mais velha. E essa premissa é boa. O protagonista tem um quest muito claro e que facilmente gera empatia. Teve um pecadilho nessa história, que é a um dado momento o pai deixar claro que a filha deve estar perdida em alguma balada, alguma rave. Não devíamos ter essa informação. Ia ser muito melhor só sabermos que o pai a procura, sem sabermos o que a fez sumir. Era só repetir nessa trama o que foi muito bem-feito em relação a uma guerra mundial, que sabemos que está em curso, mas não sabemos onde ela se dá, quem contra quem, se é nuclear ou convencional, nem mais nada. Essa nossa ignorância curiosamente aumenta a pressão. Deviam ter repetido esse expediente na questão da filha e a origem do seu sumiço.

Não vou dar spoiler, mas digo que, para mim, o melhor do filme é a pior cena dele. Ficou assombrando minha cabeça por alguns dias. E não, não estou falando de minas explodindo.

Se você for ver esse filme, recomendo que faça isso num dia em que esteja especialmente paciente. Leve uma garrafa d’água, porque dá sede.

Romeu di Sessa é roteirista e diretor há 30 anos. Com trabalhos no teatro, televisão, e cinema, ganhou diversos prêmios, inclusive um Kikito. Fez vários cursos de roteiros, entre os mais importantes destacam-se os cursos de Robert Mckee e Syd Field. Também ministra seu curso de roteiro “A Anatomia de uma História” desde 2005, já tendo passado de 50 turmas e 1000 pessoas capacitadas.