O filme O estrangeiro, inspirado no clássico homônimo de Albert Camus, pode exigir do espectador uma dose extra de paciência. A culpa é do protagonista Meursault que faz da apatia e da indiferença as molas propulsoras da sua vida. Nada parece o comover. Nem o velório da mãe. O personagem assiste a tudo apático, sem derramar lágrimas ou qualquer sinal de emoção.
Para o ator que o viveu, Benjamin Voisin, deve ter sido uma experiência interessante viver alguém que, quase até o fim da película, exigiu doses cavalares de contenção. Não que falte a trama momentos intensos. Como já dissemos, sua mãe morreu e um dos seus vizinhos tinha por hábito bater no cachorro de estimação. Mesmo olimpicamente indiferente ao mundo, ele arranjou uma namorada que tentava entender o comportamento, digamos, apático do namorado.
E ainda nem chegamos no centro da trama: o momento em que o protagonista mata um árabe que tinha arranjado confusão com o seu vizinho que, por sua vez, batia na irmã do assassinado. Mesmo nesse momento crucial, Meursault foi absolutamente frio. Indiferente. Quem gosta de true crime e acompanha histórias de serial killers, pode achar que é esse o caso. Mas não. O que move o nosso herói é uma sensação de não pertencimento à sociedade em que vive.
O estrangeiro pode ser dividido em duas partes. Na primeira, mostra a vida do protagonista até o crime frio e sem sentido. No segundo momento, a trama muda para o tribunal, onde todos os envolvidos no julgamento tentam entender o comportamento de Meursault. Aqui, a história ganha ritmo e interesse. Em tempo: essa divisão é apenas esquemática, a montagem não segue uma ordem linear e cronológica.
Com boas atuações e uma linda fotografia em preto e branco, O Estrangeiro, ao ter como protagonista alguém completamente indiferente, parece nos desafiar a lidar com as nossas próprias apatias cotidianas.