Se você perguntar para Bradley Cooper as razões do sucesso de “Nasce uma Estrela” (A Star Is Born, 2018), ele provavelmente vai citar a direção e a atuação dos protagonistas, já que ele parece mesmo um tanto egocêntrico e arrogante. Mas, se você perguntar para Lady Gaga, ela vai citar a música. Claro, ela é cantora e compositora do sucesso “Shallow”, mas ela está certa.
Se o filme se baseia no conceito central de que uma música é um sucesso, é dever dos produtores garantir que a música na qual o filme todo vai se basear seja sim, um sucesso.
Quando Tom Hanks estava produzindo o já clássico That Thing You Do! (1996), ele sabia que realmente precisava de uma balada contagiante, que convencesse o público que a canção da fictícia banda The Wonders poderia ser o sucesso todo que o roteiro do filme promete que ela foi. A produção do filme abriu um gigantesco concurso no mercado musical para escolher a música, definindo mais ou menos o tipo de música que eles queriam e convidando artista a enviarem seus materiais. O músico Adam Schlesinger teve sua música escolhida, e ela se adequou tão bem ao que a produção procurava que o hit virou até o título original do filme (no Brasil, o filme se chama “The Wonders: O Sonho Não Acabou“, o que não faz o menor sentido, já que o sonho acabou sim). Entre as bandas que mandaram músicas para o concurso estão: The Cardigans, Velvet Crush, Gigolo Aunts, The Verve Pipe, e They Might Be Giants (banda aclamadíssima pelo autor da crítica).
Por deus, até mesmo a contestável (por outros críticos, eu particularmente amo) comédia de Will Ferrell “Eurovision: The Story of Fire Saga” usa como muleta uma canção tão boa que, não só concorreu ao Oscar de Melhor Canção Original, como virou praticamente um hino da cidade de Húsavík, local que a lindíssima My Home Town reverencia.
How to Write a Song Without You?
Dito isso, é uma pena que a música em cima de qual se monta todo o roteiro de Um hit para dois (uma tradução fraca do já fraco título Power Ballad) é tão chata. E o filme nem é ruim.
Eu sou fã de Paul Rudd desde a época em que ele virou o sétimo Friends, mas ele segura bem o papel do músico Rick Power, mesmo parecendo que tem auto-tune em toda cena onde ele canta.
Já Nick Jonas, antigo integrante da boy band Jonas Brothers e que não tem nada relevante musicalmente desde então, manda bem no papel de Danny Wilson, um antigo integrante de uma boy band, que não lançou nada relevante musicalmente desde então. Parece que ele nasceu para esse personagem.
A história é batida, mas não cansa. A parte do filme focada em Rick Power é bem mais gostosinha e interessante do que em Danny Wilson: a Irlanda é mais legal que Los Angeles, tem um fator família muito agradável, e a banda de casamentos quase-falida-quase-bem-sucedida de Rick tem personagens que são muito melhores trabalhados do que seria necessário.
Mas a música é muito chata. Fica difícil acreditar que o mundo inteiro está caído por uma canção tão irrelevante que, eu não só esqueci do nome dela imediatamente depois de sair do filme, como esqueci agora, depois de escrevê-la no título desta seção. “How to write a song without you” tem uma melodia tão fraca que eu não consigo me lembrar de como a frase título deve ser cantada. Meu deus, eles rimam “you” com “you” NO REFRÃO da música! AAAAAAHHHH!
É uma lição a ser aprendida com o clássico de Tom Hanks em 1996, que foi replicado nos exemplos aqui dados: filme de música precisa de música boa. Em Um hit para dois, os produtores tinham um bom roteiro, um elenco legal, uma produção bem feitinha. Eles só precisavam de uma música que fosse grudar, com um refrão que fosse bom ao nível de virar o título do filme.
Era pra ser sucesso no cinema, mas também no Spotify.