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Resident Evil

Se tem um fã que é resiliente dentro da cultura pop, esse é o fã de Resident Evil. Depois de seis filmes protagonizados por Milla Jovovich, que progressivamente se distanciaram dos jogos, e do malfadado Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, que encheu meu coração de esperança ao trazer os personagens clássicos dos games, mas ainda assim conseguiu ser um filme tenebroso, eu continuava aguardando ansiosamente por uma adaptação que finalmente fizesse jus à franquia. Agora, sob o comando de Zach Cregger, diretor que vem se destacando no terror com Noites Brutais e A Hora do Mal, posso tranquilizar os fãs mais apreensivos: este é, tranquilamente, o melhor filme de Resident Evil.

Diferente das adaptações anteriores, o longa não acompanha Leon, Jill, Chris, Claire ou qualquer outro personagem conhecido dos games. A história apresenta Bryan (Austin Abrams), um entregador de suprimentos médicos que precisa realizar uma rota durante uma noite de neve em Raccoon City. Ao chegar aos arredores da cidade, ele acaba no meio de uma epidemia envolvendo mortos-vivos e criaturas grotescas. Sem treinamento militar e sem entender exatamente o que está acontecendo, Bryan precisa encontrar uma maneira de sobreviver enquanto leva sua encomenda para o hospital de Raccoon City.

E talvez a maior surpresa esteja justamente na eficiência do terror. Resident Evil entende que os monstros da franquia não precisam ser reproduções exatas das criaturas dos jogos para funcionar. Muitos possuem características imediatamente reconhecíveis pelos fãs, mas apresentam diferenças suficientes em seus designs para provocar estranheza e nos pegar desprevenidos. O filme também sabe utilizar corredores apertados, iluminação limitada e ambientes aparentemente vazios para recuperar aquela velha sensação de que alguma coisa pode estar esperando logo depois da próxima porta.

Outro elemento que provavelmente vai dividir alguns fãs mais puristas é o humor. Existe uma tendência curiosa de tratar Resident Evil como se a franquia sempre tivesse sido completamente séria, ignorando seus momentos absurdos e diálogos propositalmente cafonas. Basta lembrar das constantes piadas de tiozão do churrasco de Leon ou do lendário comentário de Barry sobre Jill quase ter virado um “Jill Sandwich” ainda no primeiro game.

Aqui, felizmente, o humor é muito bem dosado. Grande parte dele nasce justamente do absurdo das situações e das reações de uma pessoa comum diante daquele caos. O mais importante é que o filme nunca utiliza uma piada para interromper uma cena dramática ou destruir uma sequência de terror. O humor existe dentro daquele universo e funciona como consequência natural da insanidade apresentada em tela.

Mas talvez a decisão mais interessante de Resident Evil esteja justamente naquilo que ele escolhe não adaptar. O longa não demonstra qualquer preocupação em explicar detalhadamente o gigantesco lore dos jogos. E talvez essa seja uma das decisões mais inteligentes do roteiro. Estamos falando de uma franquia que atualmente possui nove títulos numerados, além de inúmeros spin-offs canônicos, organizações secretas, conspirações, vírus, parasitas e personagens cujas histórias atravessam décadas.

Em vez de tentar condensar tudo isso em duas horas, o filme escolhe adaptar algo muito mais importante: a experiência de jogar Resident Evil.

A busca por chaves, a exploração de ambientes, a preocupação constante com munição e os cenários que precisam ser investigados fazem com que diversas sequências reproduzam sensações familiares para qualquer pessoa que já tenha jogado um dos games da Capcom. Até mesmo itens característicos da franquia aparecem durante a história, algumas vezes como simples easter eggs, outras como elementos importantes para a própria trama.

Nesse aspecto, o longa parece beber especialmente de jogos como Resident Evil Outbreak e Resident Evil 7. Assim como essas histórias, o filme parte da perspectiva de uma pessoa relativamente comum, sem treinamento policial ou militar, que repentinamente é jogada dentro de um pesadelo provocado por mais um acidente envolvendo as experiências da Umbrella. Bryan não é Leon Kennedy ou Chris Redfield. Ele não está preparado para aquilo e justamente por isso sua vulnerabilidade ajuda a recuperar uma característica essencial do survival horror: sobreviver precisa parecer difícil.

Essa abordagem certamente pode frustrar quem esperava encontrar personagens conhecidos ou respostas sobre acontecimentos específicos da cronologia dos games. O filme não está interessado em reconstruir toda a história da franquia nos cinemas e tampouco utiliza figuras clássicas como muletas para conquistar o público. Em vez disso, Zach Cregger parece muito mais interessado em responder uma questão aparentemente simples: como seria estar dentro de Resident Evil?

Em linhas gerais, Resident Evil é um excelente filme de terror e, principalmente, uma ótima adaptação da experiência proporcionada pelos jogos, ainda que não necessariamente de sua extensa mitologia. Isso pode desagradar quem esperava novamente acompanhar Leon, Jill, Claire ou Chris enfrentando os experimentos da Umbrella, mas existe algo extremamente refrescante em uma produção que finalmente entende que fidelidade não significa apenas reproduzir personagens, roupas e cenários.

Depois de tantas tentativas frustradas, Resident Evil finalmente encontra no cinema aquilo que sempre tornou os jogos tão interessantes: a sensação de vulnerabilidade diante do desconhecido. Talvez não seja a adaptação definitiva do lore criado pela Capcom, mas consegue algo que seus antecessores raramente compreenderam, reproduzir a experiência de sobreviver naquele universo. E, em termos de qualidade, está anos-luz à frente de qualquer produto live-action oficial que Resident Evil já recebeu.

Autor:
🗺️Historiador, professor e criador de conteúdo focado em quadrinhos e mangás.