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Orwell 2 + 2 = 5

O documentário Orwell 2+2=5, de Raoul Peck, é um curioso exercício de narrativa que, definitivamente, não poderia ser feito com outro personagem. Primeiro, poucos escritores conseguiram transformar o seu nome/sobrenome em um adjetivo de conhecimento público que quase transcende seus livros. Um outro exemplo do mesmo naipe é Franz Kafka, que teve o seu sobrenome perpetuamente atrelado a situações insólitas, bizarras. Só que o Theco teve uma vida mais modesta e, se não fosse a traição de seu amigo, que publicou os seus escritos postumamente contra a sua vontade, quase não teríamos obras suas. 

O mesmo não aconteceu com George Orwell que, aliás, era um pseudônimo. Seu nome de batismo é Eric Arthur Blair. E faz pensar que um conceito intitulado Blairiano talvez não soasse tão bem aos nossos ouvidos. Já Orwelliano esteve junto de muitos dos principais fatos do século XX e seguintes e esse é o mote do filme de Raoul Peck. Na estrutura, ele não poderia ser mais simples. A única narração off são textos de ficção e não-ficção de Orwell narrados pelo ator Damian Lewis. A obra tem dois fios condutores. No primeiro, temos uma biografia do escritor que é costurada a partir das suas cartas ou ensaios. Aqui, é interessante acompanhar a evolução das ideias de Orwell através dos tempos e de suas vivências como jornalista ou atuando na guerra civil Espanhola. Ao mesmo tempo que sempre se definiu como um socialista democrático, Orwell nutria um desprezo profundo pelo autoritarismo, não importando a sua orientação ideológica. Essa premissa fez dos seus livros uma das mais contundentes críticas aos Estados totalitários de todos os tempos. O segundo fio narrativo poderia descambar perigosamente para o anacronismo, ou seja, usar ideias ou conceitos antigos para explicar a atualidade. Mas estamos falando de George Orwell e o mundo não se cansa de ser Orwelliano. É espantoso observar como muito do que o escritor disse nas décadas de 30 e 40 permanecem ainda mais relevantes nos dias de hoje. Assim, Orwell 2 + 2 = 5 pode ser entendido como uma visita guiada aos acontecimentos do  passado e do presente, o que torna essa experiência profundamente perturbadora. 

Em tempo: lá pelas tantas, o documentário cita, de forma bastante ácida, um poderoso grupo de mídia brasileiro. Não vou dizer qual, mas vou dar uma dica. É a empresa responsável pela produção e transmissão de um reality show que teve o seu nome inspirado na obra 1984, de Orwell.  

Leitor desde sempre. Apaixonado por literatura policial, divulgação científica, quadrinhos, e quase todo o resto. Fez história e jornalismo só para ficar desempregado em duas faculdades diferentes.