SALADA CAPRESE quer ketchup?

O outro lado das redes

Eu vou ter problemas pra fazer essa crítica daqui a pouco. Comecemos por uma declaração, em nome da honestidade: sou fãzão do Aaron Sorkin. Ele é quem eu quero ser quando crescer.

Vou passar em bullet points alguns aspectos menores do filme, mas que valem ser comentados. Faço isso para chegar logo na parte que é espinhosa (pra mim), que se sobrepõe (pra mim) a qualquer outro aspecto da obra:

● O Outro Lado das Redes é um filme que não entra na lista dos “top 10” do autor. O começo é meio confuso, bastante exigente, mas depois se ajeita.

● Chama atenção o ator Jeremy Strong que faz o Zuckerberg. Impressiona mesmo. Não à toa o primeiro plano em que ele aparece no filme está fora de foco. Porque fora de foco é o Zucka “em vida”.

● Frances Haugen, a personagem de Mikey Madison é muito boa e a trama na maior parte do tempo roda em torno dela (e do jornalista) e da sua complexidade quase quase incongruente, que pode ser descrita como: “é uma funcionária que, por amor e lealdade à empresa na qual trabalha, faz uma denúncia que pode arrebentar a empresa, mas faz isso para o bem da empresa, dos seus produtos e também dos seus consumidores.” Precisa ter muita habilidade para construir um personagem assim, tão ambíguo, sem deixar que ele fique incoerente ou contraditório. Isso é um mérito do filme.

● Os atores são bons. A direção não passa de ok. Às vezes a trilha sonora é um pouco presente demais. A edição entrega o que precisa. O roteiro não é ruim, mas não está no nível do autor. E minha tristeza maior é por achar que esse gap de qualidade se dá não por questões técnicas ou artísticas, mas ideológicas.

● Erra quem diz e se decepciona quem espera que esse filme seja uma continuação do A Rede Social. Não é, e diria que nem pretende ser. Os filmes nem ao menos têm o mesmo protagonista. E se for uma continuação, “desceu pra baixo”.

● Voto contra uma timeline que aparece em certos momentos para situar o público no tempo. Ela é desnecessária, tinha que dar uma solução diegética para demarcar o tempo, ou antes: tinha que pensar se precisava mesmo situar o tempo. E fica com cara de vídeo institucional. Quando o lettering animado da timeline aparece, fico esperando que entre uma locução falando algo como: “A história da nossa empresa começa na virada do Século XX, quando o jovem Giuseppe Pimpante desembarcou no Porto de Santos trazendo na bagagem coragem, uma receita de salame que era um segredo de família e uma vontade enorme de vencer.”

Mas afinal, onde pega pra mim?

O Outro Lado das Redes tem mais cara de “denúncia” do que de filme. E tem lado declarado.

É errado um filme editorialmente “ter um lado”? Bom, errado não é, até porque é difícil uma obra “não ter lado nenhum”. Mas é uma manobra de risco.

Usei a expressão “pra mim” várias vezes nessa crítica não foi à toa. Mas porque o tema de fundo da história toca num assunto que, confesso, não consegui ainda marcar uma posição consolidada, que é a questão da regulamentação das redes sociais.

A acusação que o filme acaba fazendo (grosso modo) é que o Facebook “induziu pessoas a criarem e participarem de grupos de extrema-direita que redundaram no 6 de janeiro.” Apesar do resultado ter sido esse, essa descrição não me parece correta. Não acho que Zucka “conspirou” para um golpe de estado. A discussão certa é: redes sociais funcionam baseadas em algoritmos que têm como meta criar retenção e engajamento nos usuários, fazendo com que eles, na ponta do processo, se radicalizem por excesso de exposição. E isso acontece independente do assunto, que pode ser futebol, dicas para consertos domésticos, listas de teclas de atalho para Windows 11, veganismo, dorama ou… questões políticas. E claro que o problema é só o último tema. Porque de fato o ódio nesses grupos se potencializa por retroalimentação, com resultados danosos, começando pelo óbvio: a polarização exacerbada, que é a marca principal desta zeitgeist em que vivemos. A manipulação disso pode dar um poder grande demais nas mãos de um dono de uma empresa que, como todas as outras, visa lucro.

É claro que consigo entender o perigo que tem nisso, claro que o primeiro ímpeto é dizer que isso deve ser vetado. Mas sói lembrar que isso foi exatamente a mesma coisa que aconteceu na Primavera Árabe, um movimento urdido no Facebook, que serviu não só de divulgador, mas também organizador das manifestações. O potencializador daquele evento foi o mesmo: algoritmos arregimentando pessoas para uma causa. E — tanto quanto o dinheiro — algoritmos não têm nem lado, nem moral.

Não vi ninguém reclamando ou processando o Face e seu fundador neste outro episódio. O que era o certo fazer? O Face estimular a Primavera Árabe e vetar acesso aos grupos radicais americanos? Bom, aí não seria nem meramente “dar poder” ao Zuckerberg, seria elegê-lo como Deus, já que ele teria a condição de, a seu critério, decidir a diferença entre o bem e o mal ou entre a manifestação popular “que vale” e a que “não vale”. Votei contra o lettering, voto mais contra ainda à possibilidade de redes sociais fomentarem ódio, e não voto, mas VETO a possibilidade de um empresário decidir o que é certo e o que é errado para dois ou três bilhões de pessoas.

Para além disso ou no paralelo, orgulhosamente faço parte da geração que gritou a plenos pulmões: “censura, nunca mais!”. Não gritei isso da boca pra fora: foi do coração pra fora. Censura é uma hidra de infinitas cabeças, sendo a mais perversa das cabeças a que produz autocensura. Vimos isso à farta durante o regime militar e em depoimentos sobre o tema de um sem-número de artistas que passaram por aquela época. Censura se combate cortando a cabeça-base, aquela de onde as outras cabeças da hidra medram. Na prática, isso significa tolerância zero contra censura, que deve ser capada quando ainda é grama miúda, porque depois que cresce, ela própria impede até mesmo a contestação da sua existência.

Sorkin teve a decência de colocar uma cena importante no filme onde Zuckerberg diz algo como: “eu não escrevo as mensagens, eu sou só o dono do mural onde as pessoas postam o que quiserem”. Errada essa frase não está. Mas no entanto, dita fora de contexto, acaba se tornando uma moita para esconder os outros nítidos problemas que as redes sociais representam.

A súmula disso tudo pra mim é desconforto, é não achar um lugar bom pra sentar na cadeira e vociferar uma opinião forte e fechada sobre esse complexo tema. Nesse momento (posso mudar de ideia daqui meia hora, sem ficar vermelho) acho que o que tem que ser revisto não é a ação das redes sociais nesse ou naquele evento, mas sim repensar o modelo de negócio.

O Outro Lado das Redes não ajuda nesse processo, pelo contrário, sem perceber e por maniqueísmo, acaba fazendo um simulacro de rede social, retroalimentando só um lado da questão. E talvez aí esteja o erro principal do filme, que resulta numa direção ok e num roteiro muito abaixo da média do autor: porque não é mais um filme, mas um panfleto.

Romeu di Sessa é roteirista e diretor há 30 anos. Com trabalhos no teatro, televisão, e cinema, ganhou diversos prêmios, inclusive um Kikito. Fez vários cursos de roteiros, entre os mais importantes destacam-se os cursos de Robert Mckee e Syd Field. Também ministra seu curso de roteiro “A Anatomia de uma História” desde 2005, já tendo passado de 50 turmas e 1000 pessoas capacitadas.