Novembro de 2022. Com o resultado das eleições daquele ano, o país foi sacudido por inúmeras manifestações antidemocráticas, que questionavam o resultado eleitoral. O único saldo positivo foi a enxurrada de memes que a multidão alucinada proporcionou. Um dos momentos antológicos foi o chamado “Patriota do caminhão”. Você certamente lembra. Aconteceu em Pernambuco, quando um caminhão furou o bloqueio dos autointitulados patriotas, e um deles não pensou duas vezes: subiu no para-brisa do veículo e foi de carona por alguns quilômetros. Ninguém se feriu e a internet foi inundada por memes e mais memes. E, quatro anos depois, esse pequeno incidente é a base do filme “Eu não te ouço” de Caco Ciocler, que estreia no próximo dia 14.
A premissa do filme é basicamente o meme. Começamos dentro do caminhão, com o motorista sendo entrevistado para um documentário. Ouve-se um barulho e lá está o patriota se segurando. Corta e agora estamos do lado de fora, com o golpista também sendo entrevistado, enquanto se segura para não cair. Os dois são interpretados pelo mesmo ator, Marcio Vito. Nonsense puro. É uma boa ideia. Ela poderia render um filme inteligente e divertido. Poderia, mas qualquer meme da época é melhor do que o filme.
O grande problema de “Eu não te ouço”, aliás, é o “poderia”. Poderia ser um filme muito engraçado. Mas não há tentativa nenhuma de humor, só o insólito da situação mesmo. Mas nem esse detalhe é bem aproveitado. Fico aqui imaginando a esquete maravilhosa que o Monty Python faria com o mesmo enredo. Poderia ser dramático. Até existe um esforço nesse sentido, mas que não provoca nenhuma emoção. Só tédio.
Com esse plot, poderia ser um belíssimo filme político. Outra vez, bola fora. Nenhum político, de nenhum lado do front, é citado nominalmente. Só o sobrenome do Bolsonaro aparece em um instante. O patriota nunca grita “globolixo”, não reclama do STF ou do Xandão, não pede intervenção dos militares, nem toma Cloroquina. É uma figura irreal. O caminhoneiro consegue ser pior ainda. Repete inúmeras vezes que não quer conversar com o sujeito no seu para-brisa.
Existe uma mensagem que atravessa o filme inteirinho: o vidro e o barulho da estrada impedem que os dois homens conversem. Eles passam a projeção toda se ameaçando. Mas caso dialogassem sem hostilidade poderiam notar algumas semelhanças, como ambos serem pais de meninas. É uma ideia fofa. Mas ela é repisada o tempo todo, lá pelo minuto 10 o espectador minimamente sagaz já entendeu. E, caso tenha alguma dificuldade, o nome da película traz o gabarito. Este é um filme que não quer se indispor com ninguém. Qualquer pessoa mais fanatizada, por qualquer dos lados do front, pode assistir sem passar nervoso. No máximo, vai erguer a sobrancelha aqui e além. E olhe lá!
Tive uma iluminação! Por procurar não incomodar nenhum lado dos muitos lados, pela postura equidistante, “Eu não te ouço” busca agradar especificamente um segmento que costuma ser marginalizado por todos os outros lados: os isentões. É a única explicação que me ocorre.
Assistir ao filme, me lembrou de outro meme antológico daqueles tempos sombrios. É tão bizarro que parece hoax, mas existem imagens e, em 2022, a inteligência artificial não era tão desenvolvida. Aconteceu em Porto Alegre. Os patriotas amotinados se reuniram em círculo e colocaram o celular, com a lanterna ligada, na testa. O motivo? Existem duas explicações: uma que esse ritual era para pedir ajuda para um general. A outra, minha favorita, é que os valorosos heróis pátrios buscavam ajuda extraterrestre. Ao que me consta, o esforço deles não teve nenhuma resposta. Nada. Exatamente o que aconteceu quando assisti ao filme de Caco Ciocler.