O cineasta russo Kirill Sokolov era um completo desconhecido para mim até eu entrar na sessão de Eles Vão Te Matar. Agora ele tem minha total atenção. Isso porque o filme é uma obra de ação tão bem feita, bem coreografada, bem filmada, que eu até pensei que fosse algo de David Leitch; ou talvez eu tenha pensado isso porque seria uma nova parceria entre Leitch e a formidável Zazie Beetz (a Hornet de Bullet Train, ou a Domino de Deadpool 2, dois filmes que eles trabalharam juntos).
Mas não. Sokolov manda tão bem que conseguiu que eu tivesse a admiração por um russo em uma época que pega mal admirar russos. Ele rouba um pouco por abusar de um dos meus temas favoritos no cinema: mulheres bad-ass cobertas de sangue.
Feminismo raiz
Eles vão te matar lembra muito em tema e produção Ready or Not. É curioso que ele esteja chegando aos cinemas junto com sua continuação: Ready or Not 2. Porém, vale muito mais a pena ir na sala de cinema assistir Eles vão te matar, e, se você acha que eu estou dizendo isso só porque nós recebemos convide da Warner para esse filme e não recebemos para o outro, você está certíssimo, somos vendidos sim.
Além dos dois, o relançamento de Kill Bill deixa claro que é uma época maravilhosa para mulheres com espada cobertas de sangue da cabeça aos pés. Quanto mais melhor, que venha Ballerina 2.
666
O que eleva Eles vão te matar acaba sendo mesmo o vilão. Se nos outros filmes, as mulheres combatem o patriarcado, famílias malucas, ou chefes do crime, neste, a mulher combate Satanás. Ele mesmo: o demônio, pai do mal, Lúcifer, o cão, o coisa ruim, mochila de criança, Leviatã, o Tinhoso, sete-peles, o gramunhão, o capeta, besta-fera, Alexandre de Moraes, o bolsa de enxofre, sombra de churrasco, assombração de meio dia, o diabo.
A pegada sobrenatural é bem feita e, apesar do filme estar como terror no Letterboxd (e aqui também, eu sou incoerente), ele não é aterrorizante em momento nenhum. Mas tudo bem: ele também está como comédia e não é tão engraçado assim — com exceção de certos momentos onde eu legitimamente gargalhei.
O filme sabe que o grande mérito dele está na ação, nas lutas sangrentas, nas espadas cortando membros, na elite voando, no sangue sendo espirrado. Ele não perde tempo tentando ser outra coisa. E isso é um grande mérito.
Diversão sangrenta protagonizada por mulheres provocadas. É isso que a gente gosta.