Imagine a cena: você está tranquilo em uma lanchonete em Los Angeles quando, do nada, um homem entra no estabelecimento. Suas roupas não poderiam ser mais estranhas, mas o que ele tinha para dizer faz o vestuário parecer normal. Primeiro, ele diz ter uma bomba costurada nas vestes e nenhum medo de mandar tudo pelos ares. Se isso não bastasse, ele consegue antecipar cada movimento dos clientes. A explicação? Simples, o homem diz ter vindo do futuro e estava naquela lanchonete justamente para selecionar alguns fregueses para ajudá-lo a salvar o mundo. E já tinha feito essa viagem mais de 100 vezes, mas sempre alguma coisa dava errado. E ele tinha que fazer tudo de novo.
Com essa premissa inicial “Boa sorte, divirta-se, não morra”, o filme de Gore Verbinski pode se apresentar como uma ficção científica. Até existem elementos que podem sustentar essa classificação, mas, com o desenrolar da trama, o longa pode ser melhor acomodado na prateleira da distopia.
Isso porque, conforme a trama avança, vamos conhecendo, por meio de Flashbacks, quem topou, por livre e espontânea pressão, participar da louca aventura proposta pelo homem do futuro. O que une todas as histórias é um olhar ácido sobre a tecnologia que lembra (os bons) episódios de Black Mirror. É o ponto forte do filme.
Temos o professor substituto que precisa lidar com uma classe que parece abduzida pelos celulares, até o momento em que ele resolve tocar na tela de um deles, e o docente descobre que uma horda de adolescentes podem ser mais assustadores que os mortos vivos de The Walking Dead; tem a mãe que precisa lidar com a dor de ter perdido um filho em um tiroteio na escola, mas essas chacinas parecem tão banais que o governo simplesmente financia a clonagem das crianças; ou ainda a moça que tem uma estranha doença que faz com que ela tenha alergia a tecnologia…
Cada um desses plots, poderiam render um episódio inteiro de Black Mirror. E essas subtramas são tão imersivas e fascinantes que, quando voltamos para o presente, fica aquele gosto de quero mais. Não que a busca para salvar o mundo não seja interessante, muito pelo contrário. O roteiro não perde o fôlego em momento nenhum, mantendo o interesse até o fim, que não tem nada de previsível. E nem se preocupa em dar lição de moral.
Boa sorte, divirta-se, não morra é, além de entretenimento de primeira qualidade, propõe uma reflexão fascinante sobre como todos nós parecemos abduzidos pela tecnologia. E como isso afeta a sociedade. O longa, como toda boa ficção científica/distopia não se preocupa com as respostas, mas com as perguntas que o espectador saí depois da exibição do filme.