SALADA CAPRESE frankly, my dear, I don't give a damn.

Asa Branca – a voz da arena

Antes de mais nada, é preciso ser profundamente sincero. Na contenda, homem versus touro esse escriba sempre vai torcer para o touro. Sempre. Não importa muito o cenário. Se em uma tourada Espanhola, ou em Barretos. Acho legítima cada chifrada perpetrada pelo mamífero quadrúpede contra o bípede com polegar opositor. É mais forte do que eu. E, como estamos diante de um filme que exalta justamente quem atrai nossa antipatia, uma pergunta se impõe: é possível ter simpatia pelo locutor do rodeio? 

Sim, porque Asa Branca – a voz da arena, que estreia em 18 de dezembro, trata justamente desse embate. No começo da história, o nosso protagonista, vivido pelo ator Felipe Simas, sofre um acidente que quase acaba com a sua vida. O touro marca o primeiro tento da partida, respeitável público. Mas Asa Branca não se deixa abalar e começa então um processo de reinvenção de carreira e passa a ser o locutor das, digamos assim, festas de peão. O arco do personagem título é muito parecido com o de muitas estrelas do rock. Asa Branca começa com poucos dando atenção às suas ideias mirabolantes. Aos poucos, e com o relativo sucesso conquistado, a coisa muda de figura. E, como toda boa estrela da música, temos também muito álcool, drogas, sexo e – acredite! -, rock’n roll. O bípede empatou, certo? Mais ou menos. É bom ver esse gol no VAR. As consequências de tanta dissipação são inevitáveis e o filme é honesto em mostrar elas. Justiça seja feita: o filme constrói um Asa Branca com camadas. É um personagem que é fácil simpatizar pelo modo aguerrido com que soube lidar com as adversidades. Assim, respondendo a pergunta acima, e como bom isentão que sou, simpatizei com o Asa, mas me mantenho na torcida do touro. Pelo placar do filme, o bípede ganhou de lavada. No meu, foi no máximo, no máximo, um empate, ou uma vitória espiritual do bípede. Cabe a você assistir ao filme e decidir quem ganha essa disputa.  

Leitor desde sempre. Apaixonado por literatura policial, divulgação científica, quadrinhos, e quase todo o resto. Fez história e jornalismo só para ficar desempregado em duas faculdades diferentes.