SALADA CAPRESE as God is my witness, I will never be hungry again

Akira 4K

Reassistir Akira no cinema é uma experiência que, mesmo décadas depois de sua estreia, continua sendo capaz de impressionar. Considerado um dos maiores marcos da animação japonesa e uma das obras responsáveis por apresentar ao mundo o potencial artístico do anime, o filme de Katsuhiro Otomo retorna às telonas em uma versão 4K que não apenas resgata sua grandiosidade visual, como também evidencia o quanto sua estética permanece impressionante mesmo diante dos avanços tecnológicos das últimas décadas.

Ambientado em uma Neo-Tóquio reconstruída após uma guerra devastadora, Akira acompanha Kaneda, um jovem integrante de uma gangue de motociclistas, que vê sua vida mudar completamente quando seu amigo Tetsuo desenvolve poderes telecinéticos após um misterioso encontro com uma criança de aparência incomum. A partir daí, a história mergulha em uma trama que envolve experimentos militares, conspirações governamentais, revolução e uma sociedade marcada pelas consequências de seu próprio desenvolvimento.

O mais impressionante em reassistir Akira atualmente é perceber como o filme continua extremamente atual. Embora tenha sido lançado originalmente em 1988, suas discussões parecem cada vez mais próximas da realidade contemporânea. A obra fala sobre uma sociedade que busca progresso a qualquer custo, sobre o poder militar sendo utilizado sem compreender completamente suas consequências e sobre uma humanidade que, ao tentar controlar forças que não entende, acaba colocando a própria existência em risco.

A guerra e suas consequências também permanecem presentes em praticamente todos os aspectos da narrativa. Neo-Tóquio é uma cidade reconstruída sobre as ruínas de uma tragédia, mas que parece incapaz de realmente superar o passado. O crescimento econômico e tecnológico convive com desigualdade, violência e insatisfação popular, criando um ambiente perfeito para que movimentos revolucionários encontrem espaço. Akira entende que uma sociedade pode reconstruir seus prédios sem necessariamente reconstruir suas feridas.

A relação entre progresso e destruição talvez seja ainda mais perturbadora atualmente. O filme apresenta a tecnologia e a ciência não como forças necessariamente malignas, mas como ferramentas que podem se tornar perigosas quando colocadas nas mãos de instituições interessadas apenas em poder e controle. A tentativa dos militares de compreender e utilizar os poderes de Tetsuo representa justamente essa obsessão humana em dominar aquilo que deveria ser tratado com cautela. É uma ideia que continua assustadoramente relevante em uma época marcada pelo desenvolvimento acelerado de novas tecnologias.

Mesmo com toda essa densidade temática, Akira jamais deixa seus personagens em segundo plano. Kaneda continua sendo um protagonista extremamente carismático, com sua personalidade impulsiva, irreverente e inconsequente funcionando como contraponto perfeito para a transformação de Tetsuo. Este, por sua vez, continua sendo uma das figuras mais fascinantes da animação, principalmente pela maneira como sua insegurança e seu sentimento de inferioridade vão sendo transformados em raiva e desejo de poder.

E é justamente essa combinação entre personagens marcantes e uma narrativa extremamente complexa que faz Akira continuar funcionando tão bem. O filme não precisa explicar cada detalhe de seu universo para prender a atenção do público. Existe uma sensação constante de que estamos observando apenas uma pequena parte de algo muito maior, enquanto conspirações políticas, experimentos científicos e movimentos revolucionários se chocam diante dos nossos olhos.

Visualmente, porém, é impossível não destacar a animação. Assistir Akira em 4K no cinema é uma oportunidade de perceber detalhes que podem passar despercebidos em uma experiência doméstica. A fluidez dos movimentos, a quantidade impressionante de detalhes nos cenários e a direção de arte continuam surpreendentes. Mesmo depois de quase quatro décadas, o filme consegue competir visualmente com produções muito mais recentes, justamente porque sua animação foi construída com um nível de cuidado e precisão que raramente encontramos até hoje.

A iluminação, os contrastes e a construção de Neo-Tóquio também ganham uma força diferente na tela grande. Cada rua, letreiro e prédio parece fazer parte de uma cidade que realmente existe, enquanto a destruição provocada pelos poderes de Tetsuo transforma aquele cenário em um espetáculo visual de proporções quase apocalípticas. É o tipo de animação que faz lembrar que tecnologia não substitui criatividade, e que uma obra desenhada à mão pode continuar impressionando mesmo em uma época dominada pelo CGI.

A trilha sonora de Shoji Yamashiro também merece destaque. Estranha, experimental e profundamente atmosférica, ela não funciona apenas como acompanhamento das imagens, mas como parte fundamental da identidade do filme. Os cantos, percussões e sons eletrônicos criam uma sensação quase ritualística, fazendo com que determinadas cenas se tornem ainda mais desconfortáveis e memoráveis. Presenciar essa trilha sonora em uma sala de cinema, acompanhada pela força das imagens em uma tela gigantesca, é uma experiência difícil de reproduzir em casa.

Talvez seja justamente essa a maior força de Akira: mesmo quando revisitamos uma obra que conhecemos tão bem, ela ainda encontra maneiras de nos impressionar. A animação continua magnífica, os personagens continuam carismáticos, a trilha sonora continua única e, principalmente, os temas continuam relevantes. Guerra, militarismo, revolução, desigualdade e o perigo de um progresso que ultrapassa os limites da própria humanidade continuam fazendo parte das discussões do mundo contemporâneo.

Em suma, reassistir Akira no cinema, agora em 4K, é mais do que simplesmente rever um clássico. É reencontrar uma obra que permanece viva justamente porque suas ideias nunca deixaram de ser atuais. Quase quarenta anos depois, Katsuhiro Otomo ainda consegue nos lembrar de que o verdadeiro poder de uma animação não está apenas naquilo que ela é capaz de mostrar, mas também nas perguntas que continua sendo capaz de fazer. E quando tudo isso é acompanhado pela força de sua animação e por uma trilha sonora inesquecível em uma tela de cinema, a experiência se torna simplesmente única.

Autor:
🗺️Historiador, professor e criador de conteúdo focado em quadrinhos e mangás.