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Vidas entrelaçadas

Se eu tiver que falar deste filme em uma só frase, ela seria: achei uma pena.

O filme começa super bem, muito envolvente. E fazer isso num multiplot é sempre complicado. Pra quem não sabe, “multiplot” é um filme que tem várias tramas, em vez de uma só, como a maioria dos filmes e vai alternando entre elas. Quando um filme é multiplot, não tem jeito, você tem que apresentar cada uma das tramas. E é aí que mora o risco. Porque o público vai montando uma história na sua cabeça – a primeira que surgiu na tela – e aí, do nada, aquele personagem, e muitas vezes a situação, simplesmente somem e entram outros personagens, ou outras locações, outro tempo histórico até. Como isso rompe nosso hábito, cria um certo desconforto. Então a escolha DO QUE mostrar de cada história, mais o TEMPO de cada apresentação e talvez principalmente a escolha do MOMENTO em que você vai cortar de uma história para outra, são decisões fundamentais para você criar envolvimento no público com todas as tramas e não deixar quem está assistindo ficar com a sensação de que, sem ele perceber, o cachorro pisou no controle remoto e mudou de canal.

Pois bem, o Vidas Entrelaças faz (no começo) essas mudanças de tramas de um jeito esperto. Ele se vale do fato de que todas as tramas (já falo quantas) se passarem no mesmo lugar e tempo – o dia anterior de uma apresentação no Paris Fashion Week. O filme muda de trama como uma passagem de bastão numa corrida de revezamento. Ou seja, acompanhamos um tanto de uma personagem, aí essa personagem anda num corredor, cruza com outra personagem que protagoniza a outra trama. A câmera abandona a primeira personagem e passa a seguir a segunda e assim mudamos de trama. É inteligente, deixa a coisa fluida. E esse não é um expediente que o roteiro precisa fazer o tempo todo: se fizer uma vez só no começo, o público já compra a brincadeira e entende que vamos mudar de trama sempre.

Quantas tramas tem esse filme? Bom, 3 com certeza: a da Angelina Jolie (que claramente é a principal), a da modelo africana e a da modelo ucraniana. Mas tem também outras duas, a da maquiadora e a de uma costureira, que são tramas tão frágeis, tão débeis, que não dá vontade de chamá-las de traaaaaaamas mesmo. Às vezes elas são mais subtramas das outras, do que donas de suas próprias histórias.

A prova de que o começo é bom (pra mim, né?…)

Eu vi esse filme em cabine virtual, ou seja, vi em casa. No canto de cima da tela tinha um relógio sobreposto ao filme. Em certo momento olhei para aquele relógio e o vi marcando 8 minutos. E honestamente pensei “ué, o que é esse “8 minutos”? Aí vi na barra do vídeo e era só o óbvio: o tempo do filme… Eu tive essa dúvida tola, porque na minha sensação já tinha passado, sei lá, 20 minutos de filme. Isso aconteceu por conta da dinâmica deste começo, pelo roteirista ter levado muito a sério a “regra”: “entre tarde, saia cedo”, o que significa cenas muito econômicas, muito diretas ao ponto. O resultado é um começo com uma taxa bem alta de informação por metro cúbico de história. Como eu gosto. E por isso prende.

Mas essa boa taxa foi se perdendo ao longo do filme e não é um problema que isso aconteça, desde que a gente tenha informações e envolvimento no decorrer da trama.

Então qual foi o problema?

Estou aqui dando nó em pingo d’água para responder a isso, sem dar spoilers. Segue o melhor que consegui:

A única trama “de verdade” que existe no filme é a da Angelina Jolie – e é ótima. As outras duas (ou 4) elas não têm resolução, só vão indo até que uma hora acaba – porque acabou filme. No final, as outras tramas viram vapor.

Precisamos falar sobre finais abertos.

Tem dois tipos de final aberto num filme: um é o autor deixar o final da trama sem amarra, sem respostas, nada concluído, deixando espaço para o público conjecturar o que aconteceu ou o que vai acontecer com aquele personagem. E é bem legal.

O outro tipo de final aberto é quando o roteirista não sabe como acabar a história e simplesmente… deixa, porque uma hora a projeção vai parar mesmo. A diferença com o modelo anterior é este: no primeiro o autor SABE as respostas e conclusões da trama, mas escolhe não entregá-las ao público. No segundo ele só… deixa.

Obviamente as outras tramas do Vidas Entrelaçadas padecem do mal descrito no segundo modelo de “final aberto”.

Minha hipótese maldosa para explicar esse filme:

A roteirista teve a ótima ideia da história da Angelina Jolie. Escreveu e ao fim tinha 50 páginas de roteiro (cada página de roteiro no formato “oficial” do mercado resulta em um minuto de filme.) Cinquenta minutos era pouco. Ela resolveu esticar a história, mas viu que tudo que colocava virava barrigada, aquela era mesmo uma história de 50 minutos. Muitas histórias têm seu tempo certo definido. É raro, mas acontece sempre. A solução foi fazer um multiplot, afinal, num Fashion Week devem acontecer muitas histórias mesmo. Aí colocou as outras tramas, mas não cuidou delas, ou parou de cuidar quando o roteiro ficou com 110 páginas. É uma hipótese maldosa, eu sei, mas não a descarto.

Enfim, 3 formas de ver Vidas Entrelaçadas:

1) Veja o filme inteiro, curtindo o que tem de bom, e no final você acha lindo não ter resolução em várias tramas e se satisfaz, por exemplo, com uma cena muito plástica, bem bonita, algo alegórica que tem em uma das delas.

2) Veja o filme em casa e com o controle remoto vá adiantando as cenas que não são da Angelina Jolie, que é a trama que vale (e vale bem, é tocante.)

3) Veja o filme só até a metade e pare. E invente os finais. Até porque, pra maioria das tramas você vai ter que fazer isso de qualquer jeito…

Romeu di Sessa é roteirista e diretor há 30 anos. Com trabalhos no teatro, televisão, e cinema, ganhou diversos prêmios, inclusive um Kikito. Fez vários cursos de roteiros, entre os mais importantes destacam-se os cursos de Robert Mckee e Syd Field. Também ministra seu curso de roteiro “A Anatomia de uma História” desde 2005, já tendo passado de 50 turmas e 1000 pessoas capacitadas.