O nome de James Vanderbilt, que assina o roteiro e direção do drama histórico Nuremberg (que oficialmente estreou em 2025, mas chega ao Brasil só agora pela Diamond) não é estranho aos releases hollywoodianos. Ele é mais conhecido por escrever, sendo o principal roteirista do true-crime Zodiac, de The Amazing Spider-man (aquele que o Andrew Garfield é um cara bonitão, anda de skate, faz tudo bem, mas por algum motivo não é popular na escola), e de comédias do Adam Sandler para a Netflix.
Talvez soe como um currículo questionável para dirigir e escrever um filme sobre o julgamento de Nuremberg, e a condenação dos nazistas responsáveis pelo holocausto. E qualquer pessoa que contestar essa escolha têm sim sua razão: Nuremberg é um filme que joga uma visão de cinema pipoca em cima do tema.
Elenco-Pipoca
A começar pelo elenco. O vencedor do Oscar Rami Malek está péssimo como o psiquiatra Douglas Kelley. Já Russel Crowe é um ator bem melhor, que sentimentalmente engole Malek em suas cenas, mas que pode ser facilmente contestado como a melhor escolha para o papel. Mesmo com meu alemão quebrado e berlinense (que não é o melhor dos alemães), fica óbvio que Crowe não consegue entregar corretamente suas falas em alemão. No inglês, ele começa com um ótimo sotaque alemão, mas vai esquecendo de fazer o sotaque conforme o filme avança.
Fica a dúvida: por que não chamaram um ator alemão para interpretar Hermann Göring? Não havia tanto a necessidade de meter uns rostos americanos reconhecíveis no meio do filme, já que isso não falta: Michael Shannon está excelente, John Slattery continua sub-aproveitado, Richard Grant faz o básico bem feito, e até Colin Hanks aparece de surpresa.
Conheça seu público
O elenco-pipoca faz parte de um roteiro que faz questão de se explicar em sua totalidade. Em determinada parte, um dos personagens exibe um gigantesco mapa para um general para mostrar onde fica a Alemanha, com setas apontando para os países nórdicos, desenhando para o telespectador a invasão germânica à Noruega e Suécia.
Se soa tonto para um aficcionado por história que nem eu, é compreensível essa necessidade em um filme que se propõem a falar de um tema delicado a um público mais amplo. Os diálogos expositivos, a ironia de se prender líderes nazistas em uma prisão alemã (mesmo que a mensagem escrita na parede seja em inglês “No Smoking“, afinal nenhuma sutileza é permitida), a explicação clara sobre o objetivo e o ideal de cada personagem: tudo segue o manual de roteiro básico.
Não acredito que tal dedicação seja necessariamente um defeito. Até mesmo porque as mensagens do filme são exibidas de forma bem óbvia. Quando a arrogância americana bate de frente com a arrogância nazista alemã, o personagem faz questão de destacar a incoerência.
“Até o antisemitismo nazista tinha um propósito prático“, revela o general nazista, com um óbvio paralelo com o antisemitismo crescente que vivemos, e que também é visto como parte de um propósito prático. É claro que a turminha do #FreePalestine vai preferir não enxergar essas conexões, evidenciando só a moral final da película.
Moral da história
Ah, sim, a moral do filme chega. E, obviamente, ela vêm bem demarcada, cuidadosamente explicada, como se fosse He-man ensinando as crianças o que aprendemos no dia de hoje.
A única parte do filme que não é entregue mastigada é o julgamento per se. Comparado com o que acontece ao redor, o julgamento chega a ser chato. Até mesmo as ordens em alemão de Hermann Göring ficam sem tradução nessa parte. Não que seja necessário: Crowe grita um Steht stark für Deutschland com tanta vontade que cumpre o objetivo de mostrar ao público que aquele homem ainda está no comando.
E com certa competência. Sua competência como líder fica ainda mais evidente perante a incompetência de absolutamente todos os personagens ao seu redor (com exceção de uma atraente jornalista, que também se mostra um tanto competente em seu trabalho). Todo mundo é muito ruim no que faz, e talvez isso não fique tão óbvio assim, como uma moral escondida.
Ou eu estou querendo enxergar coisa demais onde não tem.
Não devia: Nuremberg é um drama histórico mastigadinho, que ninguém precisa pensar mais do que o que ele apresenta. É um filme-pipoca fantasiado de filme-cabeça. Tá ótimo.