No dia 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia.
Ao contrário do que diversos líderes mundiais andam dizendo, a Ucrânia é inocente nessa história: ela teve seu território invadido por conta da ambição maluca de um lunático. Qualquer pessoa com mais de dois neurônios consegue perceber que as ações russas são completamente descabidas. O mundo (pelo menos a parte mais desenvolvida dele) respondeu com sanções e isolamento. A Rússia, por seu lado, fez o que pôde para blindar sua própria população da verdade.
Aí entra a ousada figura do professor Pavel Talankin. Encarregado de filmar aulas na escola onde trabalhava, com o intuito de provar para o governo que os professores estavam educando seus alunos com o conteúdo que o governo determinava, Pavel tomou uma atitude de uma coragem incrível: conseguiu contactar produtores na Dinamarca para repassar o conteúdo dessas filmagens para o mundo.
Documentário com D maiúsculo
Não é por acaso que o filme ganhou o Oscar de melhor documentário: Pavel arriscou a própria vida para fazer o filme. Por mais que ele consiga freqüentemente colocar na obra um tom leve, e até em certos momentos cômicos, é fato que o professor estaria em grande risco se fosse descoberto.
Por conta disso, constantemente Pavel aparece como um protagonista, contando sua própria história. O enredo encaminha-se para a forma como ele conseguiu fugir da Rússia, e todo mundo que o viu receber um Oscar no dia 15 de março, sabe que ele realmente conseguiu fugir. Mas há tudo o que foi deixado para trás.
Pense nas criancinhas
“É crucial eliminar opiniões divergentes para que não haja divisão política em nosso país“, diz para uma sala cheia de crianças um dos professores: Pavel Abdulmanov, em uma aula de história e ciências sociais. É uma frase opressora e a gente poderia achar distópica se não fosse exatamente esse o pensamento dos dois extremos de nosso próprio país. Quase chorei de empatia nesse trecho.
O professor Abdulmanov segue ensinando exatamente o que o governo quer que ele ensine. Se no começo do filme ele aparecia como um vilão, um pregador das idéias de Putin, aos poucos minha opinião a seu respeito mudou: Abdulmanov também é uma vítima. Ele realmente acredita nos absurdos que fala. A lavagem cerebral o atingiu.
E acaba sendo função dos professores passar essa lavagem cerebral às crianças. Não que seja realmente difícil: Eles são o tempo todo lembrados de que estão em uma guerra: há competição de arremesso de granadas nas aulas de educação física, e constante despedida de colegas que são enviados para a guerra.
Uma guerra que ainda parece estar longe de terminar.
Um Zé Ninguém contra Putin estreia com exclusividade na plataforma Filmelier+ no dia 26 de março.