SALADA CAPRESE are you talking to-ma-to?

Barba ensopada de sangue

Se escrever é cortar palavras, o trabalho de um filme deveria ser cortar cenas.

O lançamento da Globoplay Barba ensopada de sangue, baseado no livro homônimo de Daniel Galera, parece fazer justamente o contrário. O filme se arrasta, lentamente, criando enredos que não levam a lugar nenhum e deixando histórias principais sem nenhuma explicação convincente.

Com certeza são detalhes que devem ser mais explorados no livro, mas que levam a história do filme de um nada para um lugar nenhum. A relação de Gabriel com o irmão é constantemente mencionada, mas nunca explorada de forma relevante, por exemplo.

Outro ponto que é mais decepcionante ainda é a condição de Gabriel. Portador de uma doença chamada prosopagnosia, ele não consegue reconhecer rostos. A gente sabe disso porque, em uma conversa no filme, ele conta sobre seu distúrbio para outra personagem. E depois, nunca mais fala nada a respeito. A doença não o afeta, não muda o seu comportamento, e nem causa maiores problemas. Se a condição é algo tão inofensivo assim, será que era mesmo necessário inseri-la no contexto da história? Do jeito que está, ela não passa de uma mera curiosidade, que não muda nada o roteiro ou os rumos da narrativa.

É mais uma das coisas que poderia ser cortada de um filme que se arrasta. Com uma fotografia bonita, mas chata; uma iluminação daquelas de filme da Netflix moderno, onde tudo é penumbra e não há lugar para escuridão; uma seqüência de boas atuações que não salvam o filme; o resultado é uma obra que não convence e cansa.

Muita barba, pouco sangue. Não deu nem para ensopar.

Uma pena. Sempre torço muito para o cinema nacional fazer obras mais densas. Não foi desta vez.

Autor:
Barão do Principado de Sealand. Com uma inexplicável paixão por cinema, cervejas e queijos.