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Supergirl

Desde que James Gunn assumiu a liderança da DC Studios, ficou claro que sua proposta para o novo Universo DC passaria por uma combinação curiosa entre respeito ao material original e uma abordagem mais autoral, capaz de abraçar o fantástico sem medo de parecer extravagante. Após o sucesso de Superman, Supergirl surge como mais uma peça importante desse novo universo compartilhado, mas também como uma obra que busca caminhar com as próprias pernas. Inspirado diretamente na aclamada minissérie Supergirl: Woman of Tomorrow, de Tom King e Bilquis Evely, o longa encontra espaço para homenagear suas origens enquanto constrói uma aventura espacial divertida, emocionante e surpreendentemente humana.

A trama acompanha Kara Zor-El (Milly Alcock), que decide passar seu aniversário de 23 anos viajando pela galáxia ao lado de seu inseparável companheiro Krypto. Durante sua jornada, ela conhece a jovem Ruthye Marye Knoll, que busca por vingança contra o responsável pela destruição de sua família, acaba envolvendo a heroína em uma perigosa cruzada pelos cantos mais remotos do universo. O que começa como uma simples missão de auxílio rapidamente se transforma em uma jornada de amadurecimento, cura e reencontro com as próprias dores de Kara.

Visualmente, Supergirl abraça sem reservas a tradição das grandes óperas espaciais. Há ecos evidentes de clássicos da ficção científica, com planetas exóticos, criaturas alienígenas e culturas espalhadas pelos confins da galáxia. Ao mesmo tempo, o filme bebe fortemente da fonte de Guardiões da Galáxia, especialmente na forma como mistura aventura cósmica, humor e uma trilha sonora cuidadosamente escolhida para acompanhar a jornada dos personagens. A diferença é que, enquanto os filmes dos Guardiões frequentemente apostavam na irreverência constante, Supergirl encontra um equilíbrio mais delicado entre o espetáculo e a emoção.

Embora seja extremamente fiel à HQ que o inspirou, o longa opta por um tom mais leve e descontraído do que o material original. Ainda assim, os temas centrais permanecem intactos. O luto de Kara pela perda de Krypton continua sendo o coração da narrativa, funcionando como uma ferida emocional que acompanha a personagem durante toda a sua jornada. O roteiro entende que, por trás dos poderes quase divinos da heroína, existe alguém que cresceu cercada pela ausência e pela saudade de um mundo que jamais poderá recuperar.

Grande parte do mérito dessa abordagem está na atuação de Milly Alcock. A atriz consegue alternar com naturalidade entre a impulsividade de uma jovem que ainda tenta encontrar seu lugar no universo e a postura inspiradora da heroína que aprende a lidar com suas responsabilidades. Sua interpretação transmite carisma, vulnerabilidade e força na medida certa, construindo uma versão de Kara bastante diferente daquela normalmente retratada em outras mídias, mas igualmente fiel à essência da personagem.

Outro destaque é a introdução de Lobo, vivido por Jason Momoa. Havia o risco de que a presença de um personagem tão popular acabasse ofuscando a protagonista, mas o roteiro evita essa armadilha com inteligência. Lobo possui forte presença em cena, protagoniza alguns dos momentos mais divertidos do filme e entrega exatamente o comportamento caótico e exagerado que os fãs dos quadrinhos esperam. Ainda assim, ele jamais rouba o foco da jornada de Kara, funcionando muito mais como um elemento complementar do que como uma atração principal.

Um dos aspectos mais curiosos da produção está em suas homenagens aos criadores da obra original. Apesar de possuir poucas conexões diretas com o restante do Universo DC, o filme encontra maneiras criativas de reverenciar suas inspirações. Entre elas está a presença do planeta Bilquis, uma clara homenagem à artista brasileira Bilquis Evely, responsável pela identidade visual da HQ. O local ainda reserva uma divertida surpresa para o público brasileiro, incluindo uma versão intergaláctica de Garota de Ipanema que se encaixa perfeitamente no clima descontraído da aventura.

Tecnicamente, Supergirl também demonstra a evolução do novo Universo DC. Os efeitos visuais são sólidos, os cenários possuem personalidade própria e a direção de Craig Gillespie consegue equilibrar momentos intimistas com sequências grandiosas de ação espacial. A trilha sonora, embora não alcance o mesmo nível de impacto cultural das famosas playlists de Guardiões da Galáxia, cumpre muito bem seu papel ao reforçar a identidade leve e aventureira da produção.

Em suma, Supergirl é uma excelente adaptação da obra de Tom King e Bilquis Evely, além de mais uma demonstração de que o Universo DC comandado por James Gunn parece ter encontrado uma direção consistente. O filme não reinventa o gênero, tampouco apresenta conceitos revolucionários, mas entende perfeitamente a história que deseja contar. Divertido, emocional e visualmente encantador, o longa entrega uma aventura espacial competente, sustentada por uma protagonista carismática e por uma trama que encontra a medida certa entre humor e drama. Talvez não seja um filme que mude para sempre os rumos do cinema de super-heróis, mas certamente é mais uma prova de que a DC finalmente voltou a acreditar em seus próprios personagens.

Autor:
🗺️Historiador, professor e criador de conteúdo focado em quadrinhos e mangás.