SALADA CAPRESE Toto, I have a feeling we're not in Kansas anymore.

Toy Story 5

Eu não seria capaz de enfatizar o suficiente a importância que Toy Story tem na minha vida. O primeiro filme, de 1995, foi a primeira vez que eu fui ao cinema sozinho, um verdadeiro adulto, no alto de meus 8 anos. Obviamente, minha mãe estava me esperando na saída do shopping depois da sessão, mas eu imagino que eu estava maravilhado demais para perceber. Só poderia estar: estava claro pra mim que aquele filme mudava tudo. Os filmes de animação não poderiam ser os mesmos depois dele.

E não foram.

A trilogia perfeita

Quando Toy Story 2 foi lançado em 1999, foi a primeira vez que eu fiquei ansioso para ver um filme. Eu já tinha jogado o jogo de PlayStation à exaustão, mas ainda assim me deixei maravilhar de novo pelas aventuras de Woody e Buzz.

As fitas cassete de ambos os filmes, copiadas de forma caseira das originais de um tio que viajava com freqüência para o exterior, devem ter sido (junto com Jumanji, 1995) as fitas mais assistidas da minha infância. Toy Story tinha alma, tinha coração, tinha humor, aventura. Eu tenho um Woody no meu quarto até hoje!

Em 2010, Toy Story 3 me encontrou em um mundo completamente diferente. Não só eu já era um adulto pagador de boletos, que trabalhava e estudava, em um mundo bem competitivo, como eu também já era um grande fã de cinema, um amante da sétima arte que finalmente ia conseguir capturar todas as referências que os filmes sempre jogaram no telespectador.

Ah, Toy Story 3. O pessoal ali sabia o que estava fazendo. Eles sabiam que o público dos dois primeiros filmes já teriam envelhecido o suficiente para aguentar o tranco. Mas não estávamos. Na era de Avatar, eu mal consegui ver o final do filme, a lente de meus óculos 3D embaçadas pelas lágrimas que caíam copiosamente. Tive que ir em uma nova sessão assistir ao filme de novo. E depois mais uma vez.

Em uma das vezes, enquanto mijava após o filme, um gordo barbudo, do tipo que estaria tomando uma IPA num boteco de cervejas artesanais mijava ao meu lado. ““, disse ele a um amigo que também estava no banheiro, com a voz embargada, “puta saudade dos meus brinquedos“. Se eu não estivesse com meu próprio pau em minhas mãos teria me mobilizado para abraçar o gordo, mas apenas ri internamente. Eu o entendia.

Toy Story 3 foi um rolo compressor, cuidadosamente desenhado para atacar de forma cruel os sentimentos de jovens imaturos o suficiente para achar que esconder os sentimentos era um sinal de masculinidade. Foi um sucesso imenso, um grande evento cinematográfico. Foi o final absolutamente perfeito para aqueles personagens que tanto amávamos.

O pós-final

Mas claro, não dá pra deixar a franquia descansar. A arte tem que render dinheiro, o iate com heliponto do Bob Iger não vai se pagar sozinho. Em 2019, Toy Story 4 chegou como o filme que ninguém pediu. O filme dividiu críticos e até o público. Ele era tão desnecessário quanto lindo. A iluminação do filme, com as milhares de pequenas luzes no parque de diversões e os bilhões de reflexos coloridos pelo brechó, é até hoje o mais belo efeito de luzes que eu já vi em uma animação. A história sustenta, a vilã é bem escrita, e o filme parece diminuir seu escopo e focar no Woody e em um garfo de plástico. Não mudou o mundo, mas conseguiu não estragar o que tinha sido construído até então.

Toy Story 4 termina com uma nova despedida da franquia. O filme pelo menos acerta em estabelecer um novo final: a separação de Woody e Buzz é um final digno e coerente para uma franquia que começou com os dois personagens se conhecendo. Nunca conhecemos Woody sem Buzz. O final, apesar de desnecessário, tem a carga emocional que a franquia merece.

Desnecessário, porém bonito, e emocional.

Toy Story 5

Aí vem Toy Story 5, que já começa mal: trazendo de volta a dupla de parceiros. O filme nem tinha estreado e já fazia merda ao estragar o apelo emocional do filme anterior. Toy Story mostra que está jogando em uma nova liga agora: uma liga onde ações não geram conseqüências, e onde momentos de emoção não significam nada.

O pior disso é que o filme nem precisava do Woody. Eu revi o roteiro mentalmente aqui e, se o Woody nunca tivesse retornado, isso não faria diferença nenhuma para a história. Com exceção de Jessie, Buzz, e Bala-No-Alvo, nenhum dos personagens antigos têm qualquer relevância na história.

Os personagens novos são até legais: o tablet LilyPad é um vilão de filme de ficção científica, capaz de controlar outros eletrônicos. Smarty Pants é uma espécie de minigame infantil cujo propósito é literalmente ensinar crianças a cagar, de onde vem as melhores piadas do filme (escatológicas ou não).

O humor é realmente o maior ponto positivo do filme. A localização para o português brasileiro é brilhante, indo do nome dado ao porco de estimação (Alberto Resmo, um trocadilho ótimo) até um extensivo uso de memes nacionais no meio da comédia. Uma dublagem excelente, que não usa subcelebridades como muleta para atrair público.

E esses são os pontos positivos. Todo o resto do filme é mais do que desnecessário: é mal feito.

A história é um catadão de um monte de coisa que a gente já viu na franquia: um brinquedo tecnológico chega, ameaçando o favoritismo dos brinquedos que já existiam — exatamente o plot de Toy Story 1. Tem os brinquedos lidando com a dura realidade de que seus donos crescem e param de brincar — algo que eles já aceitaram em Toy Story 2. Tem um vilão ditador poderoso, tal qual Toy Story 3. O filme torce para que a o público ignore que brinquedos tecnológicos sempre estiveram presentes na história (eles jogam videogame em Toy Story 2, e até usam um computador em Toy Story 3).

Toy Story 5 se compromete a contar várias histórias, porém nenhuma delas é original ou sequer interessante. É um mais-do-mesmo deprimente, uma gororoba de roteiros antigos batidos no liquidificador e temperados com uma música da Taylor Swift.

Sobre a música: não sou particularmente fã da Taylor, mas a música é legalzinha. Muito pior do que “the ballad of the lonesome cowboy“, do Toy Story 4. Faltou coragem para a diva pop voltar às suas raízes country. A verdade é que a música reflete o problema do filme em si: uma repetição do que já foi feito antes, mas de forma pior.

Tanto Taylor Swift quanto a Pixar parecem viver de produzir sombras do que os fizeram famosos.

Pelo menos quando lançou Hoppers (este ano mesmo ainda), a Pixar se propunha a tentar algo novo. Largar suas franquias antigas devia ser a prioridade na empresa, que precisa urgentemente se reestruturar para voltar a ter alguma relevância no mundo das animações.

Do jeito que tá, não tá rolando.

Autor:
Barão do Principado de Sealand. Com uma inexplicável paixão por cinema, cervejas e queijos.