SALADA CAPRESE todo tomate merece respeito

Alerta Apocalipse

A Netflix já ficou bem conhecida por trabalhar em um modelo de produtos audiovisuais orientado a algoritmo. Como ela começou com uma vasta biblioteca de diversos estúdios e origens, ela decidiu fazer a lição de casa bem feita e começou a colher dados de seus assinantes de forma quase obscena. Ela sabe o momento que você pausou um filme, o episódio que você parou de assistir uma série, a cena que você voltou; ela sabe conectar quem gostou de “a lista de Schindler” com fãs de Seinfeld, sabe que terror é mais visto em outubro (essa até eu sei), sabe qual cidade do mundo assiste mais “The Office” em horário comercial, e sabe até quando a gente passa uma noite inteira só olhando o catálogo sem assistir nada.

Hoje em dia, dados são poder. Mas também são uma maldição. Não é a arte que tem que se adequar ao público, mas sim o público que tem que ir atrás da arte que lhe convém. O conteúdo orientado a algoritmo acaba matando a originalidade.

As produções da Netflix sofrem demais com essa busca incessante em satisfazer um algoritmo. Eles pegam os atores da modinha, buscam ver qual o zeitgeist do momento, montam uma história preenchendo uma série de requisitos, e lançam já esperando que o próprio algoritmo entregue seus resultados. Aparentemente funciona, não à toa a empresa ainda é o streaming mais relevante por aí. Mas o resultado é de uma tristeza quase depressiva.

Receita de bolo

O filme Alerta Apocalipse (uma tradução péssima do já horrível título original Cold Storage) parece ter sido criado por uma mistura de tudo que está aí em termos de algoritmos: tem os fungos de The Last of Us criando um filme de zumbis cheio de cenas explicitamente gore. Tem o ator famosinho Liam Nesson para chamar a atenção, uma promissora atriz de minoria Georgina Campbell (excelente ela, por sinal), e o ator do momento Joe Kerry, relevante atualmente com o final da série Stranger Things. Tem motoqueiros, explosões, roubos, velhinhas, governos corruptos; tudo misturado, como se a produção quisesse adicionar um elemento para agrada a todo mundo.

Tem humor, mas é um humor constrangedor. Tem ação, mas não empolga. Tem terror, mas não assusta. Tem romance, mas falta química. Tem drama, mas não convence. Se a Netflix hoje faz obras para serem vistas como uma “segunda tela“, Alerta Apocalipse talvez seja o primeiro filme a ser visto como terceira tela.

Talvez seja a obra perfeita para levar o par romântico em uma sala vazia e ficar se paquerando enquanto tem alguma coisa passando que ninguém precisa prestar atenção. Cinema ainda tem essa utilidade.

Autor:
Barão do Principado de Sealand. Com uma inexplicável paixão por cinema, cervejas e queijos.